e ele dizia que já voltava e na minha cabeça alguém falava - não - me fazia acreditar - não, ele não vai voltar, ele se quer existi, como voltaria? é um sonho, ou mesmo, o que você tinha era um sonho e esta é a realidade - é por isso que ele não podia se afastar e se afastou. entrou na orda das sombras e passou a não existir, pois nunca havia existido. e na eternidade de uma espera eu o chamei e ele passou a ser corpo nas sombras e andou de volta para mim. ele passava a ser meu mundo e ao mesmo tempo, poderia não ser, pois eu existia, eu existo dentro e fora de mim.
o estranho habitava nas sombras e distorcia hora ou outra o que eu conhecia. a todo momento a realidade brigava com o meu imaginário, onde não existia um sentido, que eu queria que permanecesse - o sentido. por isso eu não olhava para ele, apenas escutava sua voz; e seu corpo se sustentava nas nossas mãos dadas. um mundo que eu precisava refazer e onde, como um barco entre ondas, me desviava dos redemoinhos. era preciso andar em linha reta - os carros não existiam, a voz dele me fazia desviar - a voz dele.
e neste mundo que não me pertencia, era preciso estar sempre com os sapatos seguros na mão - o cadarço envolto do pulso - e a blusa em um nó, pendendo nas costas. e as mão dadas. assim criei o meu pequeno mundo de sapatos, blusa e mãos, para poder ter certeza de que eu existia e que aquele corpo era meu - mesmo tendo os olhos, a testa e a boca puxados para trás, como a máquina de tortura do livro "laranja mecânica".
e o meu corpo era vento, água de poça. era tempo.
e o meu corpo queria e fazia - as pernas molhadas de xixi, os pés desnudos nas poças da chuva que passou. um mundo que eu podia e eu sorria e tinha vergonha da cachoeira que invadia minhas pernas. um mundo sustentado dos sentidos e uma voz.
e eu podia ter sido mais se eu não tivesse me reprimido tanto, pois não aceitava as mudanças de um corpo que experimenta.



