28.11.09

e ele dizia que já voltava e na minha cabeça alguém falava - não - me fazia acreditar - não, ele não vai voltar, ele se quer existi, como voltaria? é um sonho, ou mesmo, o que você tinha era um sonho e esta é a realidade - é por isso que ele não podia se afastar e se afastou. entrou na orda das sombras e passou a não existir, pois nunca havia existido. e na eternidade de uma espera eu o chamei e ele passou a ser corpo  nas sombras e andou de volta para mim. ele passava a ser meu mundo e ao mesmo tempo, poderia não ser, pois eu existia, eu existo dentro e fora de mim.
o estranho habitava nas sombras e distorcia hora ou outra o que eu conhecia. a todo momento a realidade brigava com o meu imaginário, onde não existia um sentido, que eu queria que permanecesse - o sentido. por isso eu não olhava para ele, apenas escutava sua voz; e seu corpo se sustentava nas nossas mãos dadas. um mundo que eu precisava refazer e onde, como um barco entre ondas, me desviava dos redemoinhos. era preciso andar em linha reta -  os carros não existiam, a voz dele me fazia desviar - a voz dele.
e neste mundo que não me pertencia, era preciso estar sempre com os sapatos seguros na mão -  o cadarço envolto do pulso - e a blusa em um nó, pendendo nas costas. e as mão dadas. assim criei o meu pequeno mundo de sapatos, blusa e mãos, para poder ter certeza de que eu existia e que aquele corpo era meu -  mesmo tendo os olhos, a testa e a boca puxados para trás, como a máquina de tortura do livro "laranja mecânica". 


e o meu corpo era vento, água de poça. era tempo.
e o meu corpo queria e fazia - as pernas molhadas de xixi, os pés desnudos nas poças da chuva que passou. um mundo que eu podia e eu sorria e tinha vergonha da cachoeira que invadia minhas pernas. um mundo sustentado dos sentidos e uma voz.
e eu podia ter sido mais se eu não tivesse me reprimido tanto, pois não aceitava as mudanças de um corpo que experimenta.

21.11.09

estranho estado de ponta cabeça.

17.11.09

os bules servem chá de caracol...

4.11.09

pensamento vaai pensamento não vem que eu não quero mais te pensar pensamento vaai pensamento não vem que eu não quero mais te pensar pensamento...

em uma segunda-feira, manhã.

10:40 de sapatos jogados no chão do quarto.

31.10.09

dois corpos que vestem o sofá.

30.10.09

são palavras que andam nas gavetas, nas caixas empilhadas, entre os meios dos livros, nas dobras das meias e no cheiro de comida que a cozinha tem. palavras que ficam entre seus cachos negros escondidos na ponta da sua camisa que descobriu. nas que ficaram presas nos botões da minha blusa, quando você caminhou por eles. nas flores estampadas da minha blusa. palavras novas que enchem o ar da minha sala e se enroscam nas pernas das cadeiras e sopram vento...

24.10.09

um cumprimento

pendo o queixo na borda da caneca fumegante. a fumaça toca meu rosto.

21.10.09

trouxas de palavras, entulhadas, uma entre a outra, levadas sobre a minha cabeça.

19.10.09

eu me manifesto aos gritos e prantos - o mundo há de me comer, mas eu comerei ele antes!
outrora o tempo transbordou a cozinha de panelas sujas, pedaços de alface, a pia ora branca ora molho de tomate ora chá ora flores. a camélia não aguentou e murchou no pote da varanda que transborda chovida e rega as ruas. outrora o tempo virou moscas e eu as matei. outrora meu corpo se acordou [ou a casa sentiu saudade]. a gata se escondeu no armário de toalhas do quarto vizinho, as toalhas são sonolentas...


22.9.09

desafogou o mundo com os dedos do pé e experimentou o silêncio nas dobras da casa.
não havia mais nada. tudo o que houvera ser,  tornou-se parte do silêncio, aquele que deslizava nos livros da prateleira e tocava a boca desafogada...

13.9.09

o que se há embaixo das raízes das árvores? conta-se fábulas de crianças que crescem de dentro das árvores. e as raízes deslizam dos seus ventres. conta-se que quando o rio se afoga, as raízes se contorcem e engasgam os corpos miúdos.
conta-se que [em tempo indeterminado] o mar se afoga e se esvai lentamente, sorvido pelo meio. meio dele. e se faz mar nas palavras salgadas de algum marinheiro engasgado.
conta-se que o avesso do mundo se embrulha no estômago do homem e que em noites sem vento, o homem bebe do que era mar.

2.9.09

alguma coisa vem vindo e eu não sei bem o que é, já que ela vem vindo atrás de mim escondida de mundo...

1.9.09

e olhou para baixo da cama onde avistou a sua cama e alguém dormindo nela. cutucou com uma vara comprida, pois a cama se via distante. se remexeu o alguém.
e olhou para baixo da cama, porém na cama havia um vaso com dois peixes dourados e não mais alguém. cutucou com a vara comprida e o vaso se inclinou e a água jorrou, fez a cama de alguém boiar.
e olhou para baixo da cama, mas não havia mais cama. algo lhe cutucava. 

25.8.09

os moinhos não existem mais, mas o vento continua e dom quixote permeia...

12.7.09

é tempo de outro tempo que se manifesta.
alguém adentrou o meu mundo.


os corredores tornaram a se entortar.

1.7.09

ás vezes inclino a cabeça beira rio e deixo os peixes engolirem meus pensamentos.
[o tempo se pendura nas costas dos crocodilos]
em outros dias escalo algum muro e alago uma cidade.
[as gaivotas permanecem adormecidas. é tempo de outro tempo que se manifesta]

4.6.09

não há nada para pensar, é uma morte lenta de um raciocínio



no pano vermelho do sofá da sala.

1.6.09

... expeliu margaridas.
o ralo da cozinha transbordou
afogou a casa e correu para a rua.

26.5.09

neste espaço em branco
há um deslize de palavras flutuantes em um falso silêncio.

22.5.09

na dobra da cidade o céu se via cor-de-rosa. e as vozes de um coro de mulheres atordoava o fim da tarde, deixando-o brega. e neste momento de vozes agudas, cor-rosa do céu e música de um vendedor, que a cidade se tornou estranha e ridícula. e só eu sabia dela e deste deslize, na dobra da esquina. e só eu sabia que ela era estranha e eu estranha para ela e que nenhuma das duas se queria, pois era ridículo, era estúpido e ela sabia.

9.5.09

cheiro de chuva envolvendo. nos caminhos da casa, o sono de chuva vem.

4.5.09

o tempo do gato que grita.

22.4.09

em algum ponto eu dei uma cambalhota, eu tenho certeza disso, de ter visto o meu cachecol se enroscar na ponta do prego e ter dado um nó em mim. a segunda ou talvez a terceira vez que meu cachecol se enrosca na ponta do prego do assoalho. em algum ponto foi dado a cambalhota e meu corpo imerso no vaso de flores... corpo miúdo, pendurado pelo cachecol naquela ponta de prego preso no assoalho da casa. o vaso por dentro me segue, de água escura. o meu corpo esguio persegue os lados do vaso de flores. em algum ponto meu corpo explodiu e virou pétalas. o cachecol preso na ponta do prego preso no assoalho. o vaso me acolhe nas águas escuras. talvez se me desfazer do cachecol eu vire, eu revire a cambalhota. em algum ponto eu deixei a cambalhota, em algum ponto. o cachecol preso na ponta do prego do assoalho da casa. talvez se continuar aqui e depois ir para fora, mas talvez se eu continuar aqui e virar flor.
o cachecol enrolado no meu pescoço, preso na ponta do prego do assoalho da casa.
em algum ponto foi dado a cambalhota, eu só preciso de ar, ser consumida pela água suja.

19.4.09

não há como descrevê-la, não há mais como, pois estou acordada e agora imagens de outras ruas invadem esta rua de sonho, perdida no labirinto de meus devaneios. não há mais como resgatá-la, agora é lembrada como passagem de algum sonho, uma rua. uma rua é o que sobra. não ouso tocar com a escrita nos seus detalhes, é frágil e quebradiça e um deslize e ela, uma rua de sonho, passa a ser aquela ou esta. ruas pelas quais já passei, pelas quais contemplei em filmes e livros. ruas, tantas, pelas quais passei, que agora não mais vejo uma rua de sonho. mas insisto em escrever. sei que ela se perde, lentamente, de mim, enquanto teimo nesta escrita. mas só assim saberei que uma rua de sonho já existiu, fez o meu andar em um sonho breve...

4.4.09

ás duas e catorze da manhã faz uma curva dentro dos pensamentos,
o sono busca se infiltrar no corpo às duas e quinze de uma manhã que não desperta
pois o corpo permanece junto de pensamentos borrados.
ás duas e dezesseis de um lugar, canto da casa quase desmaiada de
televisão conversando com o sofá. a casa me espera.
uma brisa vindo da janela invade o corpo que se mexe sem propósito
se mexe, pensando às duas e vinte de um dia estatelado nas mãos lentas no teclado.
são vinte e duas da manhã e os sonhos sobem pelos meus pés,
querendo aos poucos me afogar em lugares dentro de mim
os sonhos me guardam dentro de meu corpo que é feito de passagens estreitas
de ruas que terminam na cozinha de alguém.
são duas e vinte e três de muitos relógios que pendem delicadamente para um lado
em um tempo de quase dormir.

1.4.09

sentada no meio do mundo, mexendo no ponteiro do relógio.
e pensa que talvez, se as horas apontassem para o meio, talvez assim todas as horas do mundo se concentrassem no meio do mundo. e talvez assim, como uma cilada, o meio do relógio engolisse todas as horas.
sabe que sentada no meio do mundo, também iria ser tragada pelo relógio, diluiria e viraria chuva. e que o relógio cuspiria a chuva para o mundo sem horas. o corpo da menina afogaria as pessoas em um tempo perdido.
sentada no meio do mundo, a menina chovia por dentro. se via a chuva dentro do corpo transparente e o relógio tocava, esperando ela torcer o tempo.

24.3.09

é que eu me distrai e o céu me engoliu. eu me distrai e o copo que continha... o que o copo continha? o céu me engoliu. e os meus abraços foram arrastados. eu me, eu me, o copo caiu. continha... o quê? os braços se desalinharam na estrada, foi de... foi quando a tarde tomava a noite, que o céu me puxou.

20.3.09

eu só queria estrangular a arte, talvez assim ela perca o sentido e adormeça nos meus pés.
enquanto isso: perfuro livros.
eu só sei que um dia nasci para você (e depois ela nasceu para mim).

15.3.09

em tempo de mariposa a boca se esconde no travesseiro.

11.3.09

se esvai a fala-mariposa da boca de papel.

8.3.09

o mundo está dentro de mim,
ele não existe do lado de fora.
o lado de fora está dentro de mim.

são minhas linhas que saciam você.

26.2.09

Em tempo de baunilha
piolhos andam nos distritos
Marias comem melancias
Morangos crescem dentro do rio
Confabulam fábulas a luz do dia
as verdes luzias do meu planalto.

20.2.09

e só agora se percebe. boiando, mar adentro. só agora se percebe aquele buraco, turbilhão que a tanto sugava o corpo inerte. só agora.

19.2.09

corpo fluente, que cresce, cresce, entorpece e se parte no meio, explodindo em muitos. e se faz novamente crescente e se cerca de si, se cerca de você. e se estica, na tentativa de ser dois mundos, se estica e se parte no meio. no meio. estou ao meio. na tentativa de ser dois mundos. na tentativa. partida no meio.

14.2.09

caminhamos dentro de conchas, nos arrastamos pelo espaço ausente. nossas vozes ecoam lá dentro e entram em atrito com nossos pensamentos. pequenos mundo-concha. não se vê, apenas se escuta a própria voz. não há outros. apenas você, omnipresente.


não há espaço, se o "dentro da concha" é considerado seu corpo. se é lá que você é. enclausurado.

10.2.09

na sombra postada na beira pedra um grão consome o branco.

6.2.09

e o garoto arrasta o rio até o oceano, onde sente.

5.12.08

só pra constar:

hoje me achei na dobra de um livro. entre uma costura e outra. enrroscada em uma linha perdida. ás vezes é difícil se movimentar; se dobram a folha me entorto toda.

3.12.08

já fazia um tempo, precisamente um tempo. que a escada saia, corrida de dentro da barriga do homem. e o homem ficava parado. os braços compridos jogados no chão; o nariz tocando de leve no buraco. tocando de leve e sendo puxado para dentro do buraco da barriga. a escada corria para fora e já fazia um tempo, precisamente um tempo que o nariz do homem era sugado pela barriga. era sugado avidamente pelo buraco, até um tempo virar dois tempos de cabeça e costas e corpo para dentro do buraco.
já fazia alguns tempos, não mais precisos, que um buraco corria para, de dentro da escada.

29.11.08

e eu só sorrio mil sóis condensados!!
as flores crescendo para dentro da terra.
embrulhadas dentre as raízes.
me esparramo nos sons de algum lugar.
é de meus pés enterrados que as flores crescem para dentro.
fazendo rir o corpo encolhido.

(escutando cocorosie, conhecendo)

11.11.08

as florestas são labirintos que se contorcem dentro de nossos corpos. quanto mais se aprofunda, mais difícil é de se sair.

2.11.08

Nadie es alguien, un solo hombre inmortal es todos los hombres.

Jorge Luis Borges

24.10.08

En la ciudad donde los pies míos se tornam suelo y lo restro del cuerpo paraguas andando sobre los edificios. No puedo ser tantos en solamente un caminar. Me parto en pedazos. Parto para lejos. Pero aunque estea en una cuerda que hay de irse, me arriesgo y siento un pequeño estremecer, un placer en sentir lo cuerpo estirar. El pies se tornan suelo y la cabeza paraguas. Mis brazos espacio y los pechos pájaro.
que ela caiu no balde de tinta preta, mas não é bem sabido, pois ninguém a viu no balde de tinta preta. e bem sabem que ela gostava de azul.

por mim, ela se engasgou e virou tinta azul.


..e me levou para bailar no meio do corredor!

/outubro

7.10.08

e eu desenho o cheiro da chuva.
enfim.

5.10.08

sou feita de cada curva do rio.

3.10.08

pelo rio de guimarães ser levado.

2.10.08

é na escrita que reside o estranho. o estranho habita cada mover de pensamentos caóticos. é num não saber que ele surge e se entrega, se emaranhando em cada curva das palavras. é num não saber sabendo. é num constante redemoinho que ele se forma. e contamina as palavras. um querer caótico que se delicía. envolve o não espaço ou o espaço desprovido.

27.9.08

se formos observar pormenorizadamente o acto ou efeito de situar devidamente, bem como deve ser observado pormenorizadamente, chegaria ao acto de concluir que, apartir desta observação pormenorizadamente bem sucedida, a qualidade daquilo que é crível é razoavelmente observadoramente pormenorizada.

o sapo verde musgo adentrou a boca semi aberta.
era madrugada e sapos coaxavam de dentro da boca semi aberta.

26.9.08

é tempo de espiar.

e que se fale baixo para que não escutem. o tempo é levado nas pernas das gaivotas. e que se fale mais baixo, pois no vôo raso, mergulhei no mar e te engoli. te tenho em cantos e te sussurro no sono. é quase tempo de dormir. é preciso falar baixo, para que elas não te roubem a voz. é tempo de quase dormir. e as gaivotas voam rapidamente.
a gaivota voa. no raso do vôo. raso. quase dormindo, meu corpo. calor.
hoje não vou.

25.9.08

e vou-me mais uma vez.
é tempo de gaivota.



de quase dormir.
vou-me no gole de uma gaivota. (janeiro de 2006)


vou-me de novo.

23.9.08

e também é estonteante. sim. sem dúvida alguma. não acha?

15.9.08

Zantedeschia

11.9.08

buracos. buracos. buracos. buracos.
buracos. buracos. buracos. buracos.
buracos. buracos. buracos. buracos.
buracos. buracos. buracos. buracos.
buracos. buracos. buracos. buracos.
buracos. buracos. buracos. buracos.

10.9.08

e ela gritava risos constantes! entoava bochechas doloridas e corpo arqueado! queria tê-las, as risadas! se deliciava e as queria cada vez mais. pensava em guardá-las nos seus sapatos, em suas bolsas, bolsos. móveis. pela casa inteirinha. pensava. pensava e desejava, até ficar corada. o corpo quente, pulsante, inteiro. ia explodir! explodir. em pequenos pedaços. sumir. mas não queria sumir! não queria explodir e ter que pegar cada pedacinho. não queria. não queria sentir frio, o vento trespassando no seu nada. nenhum. e parou! a risada cessou. silêncio e o corpo pulsando, queimando devagarinho. ficando leve, moída. e aos poucos esperando, sentada no chão. esperando. esperando de mentira. é que imaginava para onde iriam os dedos dos seus pés quando fosse dormir.

8.9.08

dei ao poço cada parte de meu corpo.
o que era ontem não o era mais hoje e não o é amanhã.

5.9.08

ponta.

de ponta cabeça.
quando pequena, pensava que ao ficar de ponta cabeça os pensamentos se inverteriam. logo o corpo inteiro se inverteria. num dado momento em que, se eu não fosse rápida, engoliria meu corpo.

15.8.08

cambalhotardes

a arte de dar cambalhotas.

eis que em um breve instante o espaço se dobra.

30.7.08

o mundo de ponta cabeça e as moças virando guarda-chuva e a chuva molhando a sola do meu pé e as pontas da mesa cutucando quem tenta andar pelo céu e os peixes puxando os pés e os braços da gente e torcendo os nossos corpos até molhar seus corpos miúdos.

6.6.08

O tempo costura o corpo. As linhas brancas unem cada curva. A boca que vira joelho. A mão revira sexo e o cotovelo se dobra entre uma curva das pernas e encontro das palpedras. As linhas ondulam pelo desconstruir de um corpo. O pensamento entorta o objeto-corpo, o chão costurado pelas linhas dos pés das curvas de pernas de braços de sexo e mãos e bocas. Cada fio da nuca se entrega nos vãos do corpo pisado. O tempo engolhe a boca do corpo. O pensamento vomita palavras desconexas que se tornam linhas e fios de nuca no piso-corpo.
Há bolhas de ar da parede aos pés do chão. Alguém respira debaixo de teus pés, repare.

5.4.08

dadá

sempre acho que tem uma salamantra de turpente no meu pé. lambrendo os beuços.

joana
isa
entorta o tempo nos passos.
de cadarços desamarrados.

6.3.08

e ele ia tirando pela boca. a boca tirava os bichos e o chão semeava vaga-lumes mortos.

22.11.07

indo

Andando, beira rio, na beirada do rio. Menina de pernas compridas, se equilibrando, beira rio. Os braços finos, soltos no ar. Moleca de vestido rosado e o rosto fechado, prestando atenção em cada movimento, em cada pedra que se equilibrava. Queria ir-se assim até chegar no final do rio e correr de volta para contar ao pai. Um pequeno sorriso se punha no rosto e de olhos fechados podia imaginar o rio rindo junto do seu pai e caiu. Caiu a menina no rio. O riso do rio era na verdade mau riso, gargalhada. Era na verdade um menino de mãos na cintura, olhando para a menina ensopada e dando rios de gargalhada. E ela olhou de olhos mareados, se pôs a chorar segurando o vestido encharcado na beira rio. E chorou tanto que o rio virou mar e o menino se afogou. Foi levado embora e a menina abriu os olhos. Quase caiu no rio.

19.11.07

no meio andado. o céu esbarrado no canto dum prédio. a tenda avermelhada de um circo quase ausente. no meio andado torto. o gato, metade, voando no fundo avermelhado, que é tenda de circo. uma bexiga esverdeada, quase preta, na ponta do céu esbarrado. no meio andado torto de pernas e mãos. um quase carro engolindo o meio da rua.

15.11.07

ponto

no rio amazonas uma baleia dorme e cinco pescadores se revesam no sono medroso dela.
no rio amazonas, no raso de seu caminho, uma baleia e cinco pescadores se encontram atolados.
os homens de varas de pescas nunca viram peixe maior e a baleia nunca viu mar menor.

ponto

já é tempo do rio fazer a curva. já é tempo dele se ir.
os peixes já se contorcem e as moças do rio já dormem na curva.
já é tempo e o tempo já vai. leva a curva das moças, junto do rio sem peixes.

14.11.07

ponto

ôlhiluz num meio, esparramado didêntro dum rio.

11.11.07

montanhad'areia.

25.10.07

pequeno conto

Alalarim é bicho do mato que sempre quando a tarde vem fazendo coceguinha no dia, vai de fininho no canteiro de rosas da casa de bamai e chora baixinho.
Alalarim é bicho travesso e quando bamai ajoelha e diz assim pr’as rosas chorosas:"que há mininas, que há?". Zac! Alalarim vira colar de pétalas e bamai, vaidosa, coloca a buniteza no pescoço, as pétalas roçando de leve nos seios pequenos. E só quando o homem de bamai chega na casa, só então foge alalarim na calada da noite. Para na outra tardinha se apertar, de novo, dentre as rosas do canteiro.

22.10.07

Um balançar jogado no tempo. corpo encolhido nas cores borradas de um sorriso que foge.
Distante. Naquela árvore que engole o mundo.

20.10.07

Sentada no sofá vermelho. Vi sair do meu peito um ser de longas asas. Me senti quente. Abriu as longas asas, partes uma vez de meu corpo, e se afogou no espaço de minha sala. Eu a desejei no instante em que abriu suas asas de lasca de lápis e elas se foram. Minhas mãos, paradas no ar, queriam abraça-las, surpresas. Eu não sabia que em meu corpo as asas lá ficavam. Sentada na beirada do sofá vermelho quase engolindo um suspiro. Seria ele as asas de lascas de lápis?

17.10.07

gosto de me perder nos corredores que nunca fui.
nas ruas olho atentamente para os corredores de casas que uma vez terei que entrar.
as sombras penduradas nas paredes ou o bréu que arrasta meus passos. os cheiros. ás vezes os corredores se fazem de pequenas ruas.
penso que é só um movimento para ele me engolir, só um movimento para eu virar corredor.
e só de pensar me arrepio.
mas ele sabe que só existe porque eu passo por dentro dele.

1.10.07

e as nuvens se dissolvem no banco
e o mundo alagado no meu quintal

todos olham por debaixo d’água
o mundo se engasga
e o céu vigia por cima d’água
o mundo calado

no meu quintal se guarda a chuva
e os urubus comem as carcaças de um sol
na temperatura que acentua
e o mundo gira no meu quintal
Faço coleção de sombras.Eu as guardo de baixo do tapete da sala.
O único problema é que elas ficam disformes. Minha irmã diz que elas são na verdade a sombra do tapete da sala. Mas que boba! É claro que não! Eu sei disso, porque eu que coloquei elas lá. Uma era comprida, a outra cheia de furos.. assim por diante.Imagina, virar tapete, até parece.

22.9.07

hoje acordei com um pé maior que o outro, um braço longo que abraçava a porta e o pescoço comprido, expremido no teto ao lado da lâmpada. Minha irmã ligou o interruptor e meus olhos arderam tanto, ai como é dolorido crescer.

17.9.07

Uma menina apoiada na mureta e o rapaz enchaguando o chão. Água de sabão se concentrando no ralo. Ela fica atenta, vendo tudo escorrer.
- Que foi? - ele pergunta.
- Acho que peguei um resfriado.



p/ um querido amigo.

16.9.07

atibaia

e ela gosta de balançar, ter o corpo próximo dos galhos de árvores e beijar o vento.
e eu a assisto se mover rápido e corro para perto. empurro com força. e ela vira pássaro e cai nas margaridas da vovó.


p/ a jô

8.9.07

dois

-mirava as árvores chorosas, se balançando, quase se desprendendo do chão. ah, se elas se fossem nos olhos de quem mira..

-a escrita vai se perdendo, virando sussurro, adormecendo. quase não se vê o espaço. a caixa se fechando, apagando gestos e tudo se encolhendo. calando. e tudo virando nada, nem silêncio (pois silêncio é som) e nem o nada. é um vazio. simplesmente um vazio. um não existir.

29.8.07

Suas mulheres

A escada de caracol passava pela sala de suas mulheres.
No térreo uma menina estava sentada no primeiro degrau, dormia apoiada no corrimão, por vezes acordava com o ranger incessante que vinha muito acima. Em outros degraus da mesma escada, uma moça - em um traje azul marinho- esfregava arduamente uma mancha na madeira gasta da escadaria; os braços da jovem iam e vinham, enquanto os degraus rangiam. Passado alguns minutos, um gato preto subiu a escadaria, se enroscando nas fivelas de alguns sapatos, que se tornaram inúmeros a cada degrau da escada de caracol. Ao final da pilha, se aninhou em um par de salto agulha vermelho. Deitou sua cabeça no piso da escadaria. Um paletó cinza se pendurou no corrimão. Uma mulher semi-nua se movia por entre vários espelhos de sua sala, arrumando seu chapéu de plumas na cabeça. O gato preto se assustou. A menina de vestido azul, que dormia no térreo, subia rapidamente a escadaria, passando pelo gato e os sapatos. Subindo até abraçar uma mulher parada no último degrau da escada de caracol, onde alguns guarda-chuvas pretos estavam pendurados no corrimão, junto de uma xícara de chá branca.

28.8.07

Devo dizer, ouso dizer que nem sempre portas entre abertas são ditas como "bem-vindas".
É preciso ter cuidado ao pisar no capacho. Certifique-se do seu sapato, alguns são feitos para fazerem rangidos e assombrar as portas, elas são medrosas e podem se fechar rapidamente na sua frente. Um risco terrível para quem viaja no escuro. Para estes, escutem com atenção o que lhes proporcionei agora, um pequeno deslize e ficarão perdidos.
Para aqueles outros, desocupados, esqueçam o que acabo de dizer. Andem despreocupados e façam juz do "ser desocupado" que vocês são. Tenham as portas fechadas na suas caras.

13.8.07

E quando ele ficou de ponta cabeça viu o sol. Aquela bola avermelhada. Mas o que havia de diferente? Ela continuava lá. Havia virado de ponta cabeça, junto de seu corpo ou apenas continuava do mesmo lado provocando seu espaço?
Mas ele sabia que estava de ponta cabeça, tinha certeza só pelo toque das mãos e da nuca no solo quente. Sabia que nada havia a cima de seus pés ( ou seria a abaixo? já que tudo havia invertido). Seus dedos do pé se mexeram apostando no correto, mas o que seria correto? Os dedos sentiram um calor semelhante ao que estava sentindo na nuca e mãos, seu coração acelerou, com cuidado esticou mais a perna e parou. Parou. Continuou mais um pouco, fechando os olhos rápido para não sentir algo parando, mas não parou. Porém o calor continuava e já não havia perna que alcança-se, seria mesmo outro solo a cima dele ou apenas o sol que lhe queimava os pés? Como saber? Queria ver! E se des-virou.
Olhava para o solo.
Mas agora já não sabia se estava em pé ou de ponta cabeça. O sol ainda estava no mesmo lugar.


(olhando uma pintura do Portinari)

10.8.07

arquivo


a pedidos de uns.
alguns de meus silêncios.

6.8.07

...

a bailarina desafia as sapatilhas.

24.7.07

descobri nesta tarde uma linha silenciosa, se movendo na ponta da minha folha.
acho que elas crescem com mais facilidade no frio!
estou perdidamente apaixonada por ela!

15.7.07

um banco sentado no chão.
o chão sentado em um homem.
física.


simplifique.

6.7.07

numdia choveu azul. no céu. eu vi meu corpo ficar chuva.
a chuva vai e passa, deixando arrepios!

noutro dia chovia tanto e o vento assobiava, que era de rir muito!
é que minha saia subiu e me levou junto dela!

p/ meus queridos.

25.6.07

perdi meu porto.
estou no mar.

24.6.07

se um dia você parar eu paro também, que nem brinquedo que quebra.

21.6.07

ás vezes o sol se guarda, o que é dia vira noite
e todo menino que dorme sonha sóis

ás vezes a lua se apaga, o que é noite vira dia
e toda menina que dorme sonha luas

17.6.07

nunca usei nunca.
o que é corpo?

13.6.07

dormindo

subir correndo e pular no colo da lua! beijar teu ventre.. e lhe enrroscar.
só queria ter mil escadas para chegar até ti - sempre abraçada em teu colo, minha- mil e uma e três e duzentas vezes..
o mundo infestado de minhas pragas.

ainda me chamo dentro de ti.

12.6.07

depois de agora

as palavras me embrenham. sou só palavras até acontecer e todas elas se embaralharem, se revirarem e eu não ser mais corpo e meu corpo não ser mais criança. dopada. e meus pés se revirarem e não sentirem mais chão, porque ele nunca esteve lá.
palavras na minha boca. caroço na garganta de mulher - os dedos do meu pé estralam-.
o livro enamora o meu pensar. eu deixo, só não me entendo mais. o que sou?

agora

"Quando a brisa leve, a brisa de verão, batia no seu corpo, todo ele estremecia de frio e calor. E então pensava rapidamente, sem poder parar de inventar. É porque estou muito nova ainda e sempre que me tocam ou não me tocam, sinto -refletia"

Clarice Lispector, "Perto do Coração Selvagem"

3.6.07

vejo mil cabeças rodarem
mil vezes vejo as mil e uma e duas..
rodarem

25.5.07

eu moro no fundo de um guarda-chuva. outras vezes moro em uma lata de conserva.
procuro calor e escuro, pois tenho olhos sensíveis. hoje fui para dentro de uma caixinha de música, ela não canta mais e eu durmo no seu silêncio, protegendo a bailarina adormecida.
protejo meus espaços. uma vez engoli um sapo verde e gosmento, que tentava entrar na minha lata de conserva. ontem soprei o meu guarda-chuva para longe, escondi ele atrás das nuvens. sou possessiva.
eu moro onde o velho calor se acolhe. sou monstro do armário, bicho do mato. sou aquilo que anda com o silêncio e come os olhos das crianças. sou tudo o que elas não vêem e tudo que elas vêem.

22.5.07

Ladeira de pedra vermelha,
os pés descalços a labrincar
Labirinto nas entrelinhas..

brincando de linha em linha..

Labrincando de pé na ladeira,
rodeando as pedras vermelhas
Ladeira de pé ante pé

ladeira de pé ante pé..

Labirinto entre linhas vermelhas
dos pés descalços a labrincar..
Ladeira de pedra vermelha

uhummm.. de pé ante pé
uhummm.. de pé ante pé

(assobio)



(pensando: brincando de compor. meio bobo, mas gosto. adoro ladeiras!)

21.5.07

roubei o grito da noite e tenho ele entalado na minha garganta.
me assusta ás vezes escutar a noite calada. por vezes um
pássaro assobia e meus passos ecoam na rua.
roubei o grito do pássaro. tenho todas as noites em minha garganta.
roubei o grito de meu corpo. sou noite.
me assusta saber que sempre a fui. e que
a noite nunca se calou.
colhi minha sombra na boca da noite. sou mais uma vez.
(até o meio dia levá-la de mim)

17.3.07

guardava a chuva no cômodo vermelho. toda noite vinha o menino, abria devagarinho a gaveta, uma pequena fresta para ver a chuva. ás vezes sua mãe lhe chamava e ele corria para o colo, com o cabelo húmido. sua mãe perguntava:- o que fizes-te?-nada minha mãe, apenas namorava a chuva!- e ela ria baixinho, sorrindo para o menino. Foi então que um dia sua mãe o viu chorandinho no canto da sala: -por que tanta tristeza?- foi ela minha mãe, me trocou por um guarda-chuva.

13.3.07

a escrita deu seu último suspiro.

23.2.07

sonho

Sonhei com uma maga. Eu corria por um pequeno prédio acizentado. Não conseguia sair de dentro dele, mesmo tendo o céu tão perto de mim.
Estavamos na área de lavar roupas. Inúmeros trajes pendurados no varal. A maga tinha magia nas mãos e podia trazer vida à objetos que soltava para me pegarem. Consegui roubar da maga um pouco de sua magia e voei para o alto, porém ela me puxava, me alcançava sem esforço. As roupas do varal atrapalhavam a minha fulga.
Saltei em cima do varal e saltei para o outro varal. Ela já não podia mais me alcançar. Voei para o alto do arranha-céu. Para o alto de um enorme edifício.
Lembro-me de duas estátuas de mármore que seguravam o prédio. Eram belas. Toquei em uma delas para atacar a maga - uma jovem nua- me desesperei. Lembrei-me que estavamos em uma altura absurda e a jovem cairia da pequena base ao despertar. Ela despertava rapidamente. Tentei impedir seu despertar congelando seus pés, mas minhas mãos, como a da maga só criavam vida e não morte. Era tarde demais. A jovem abriu os olhos. Andou para frente, o corpo de mármore se tornando quente. Caiu. Um vulto cinza. Soltando um grito de dor ao se estatelar no chão.
Tenho medo deste sonho, a dor que vi nos olhos dela ao cair. Olhos que acabavam de despertar, como um bebê saindo do ventre.

14.12.06

cheiro de mato de pé de moleque de terra batida de terra batida. de olhos sangrados. de soluço. da planta arrancada. cheiro de mato pé de moça de terra moída de roda de saia. de roda de tarde. de pé de moça pisando em amora. cheiro de tudo grande de árvore corrida de cavalo de moço de tudo. cheiro de café do pé de moça moída na roda de saia. de olhos sangrados. o cheiro.

26.11.06

criança

choro.
não choro.
choro de bebê.
choro de choro.
da planta do choro.
(eu)choro. choro.
eu choro.
choro por alguém (?)
choro de chuva.

(eu) choro
choro de chuva.


ps.:

pequeno choro:
choro de garoa.


tradução para francês:

petit gamin

pleurs.
non pleurs.
pleurs de bébé.
pleurs de pleurs.
de la plante du pleurs.
(je) pleurs. pleurs.
je pleurs.
pleurs pour quelqu'un (?)
pleurs de pluie.

(je) pleurs
pleurs de pluie.



(ps.:)
petit pleurs:
pleurs de peu pluie.




(difíl fazer isto..o sentido é outro..nem sei se está certo.)

9.10.06

contadores do dia

-Uma cadeira, naquela estrada de luzes.
No silêncio, um gato caminhou tranquilamente
e começou a empurrar a cadeira.
A cada arrastar da cadeira, uma árvore
sumia no escuro. O gato sorria ou fingia
sorrir, na brincadeira de calar o dia.



-
A estrada branca é contagiada
pelo cheiro da noite. Os olhos quase
fechados, confusos.
Alguém roubou o dia.



-
Depois de um tempo uma pessoa andou
na estrada escura. A cadeira da cozinha
corria muito à frente, numa luz branca.
Ninguém entende como é o que é e já
dizem que é sonho. Mas é mentira. A cada
tempo impermanente uma cadeira
foge na ponta do dia!

8.10.06

arrasta o tempo que nem mar que arrasta areia!
mas que toda moça que é fica arrepiada!

15.9.06

...

e mais movimento possível só se tem no cemitério
e cada pessoa que entra nas suas ruelas, sabe bem o que digo.

pois veja só, mais a frente! aquele grupo pequeno que anda devagar
saboreando as linhas das estátuas. estamos em tempos mudados, meus caros.
o museu também muda de forma.

O3A

a cidade dos rostos, das curvas.
onde os gatos dormem...
ondem dormem as estátuas.

um garoto lava a perna,
uma moça se perde nas ruas
e curvas

a cidade onde gatos brincam
de se esconder,
onde se escuta tudo e
não se vê nada.

ninguém se vê
na terra da passagem
dos perdidos

o incômodo paira
a cada corpo que se move
(olhos que não se acostumam com
o movimento)
a cada estátua que ri
(no sol da tarde)
com olhos chapados
a cidade..

7.9.06

hoje contei palavras.

11.8.06

sem título

Uma vez andava pela rua e vi uma pomba
pousada no fio de um poste,
ela olhou para mim e começou a andar.
Uma vez andava no fio de um poste e
vi uma pomba olhar para mim na rua. Ela se inclinou
e virou criança.

Uma vez, parado na rua, contemplei uma criança
andar no fio de um poste. Ela se inclinou
e eu virei pomba.

talk

Não olho os pássaros que pousam nas linhas dos postes,
mas sim as linhas que pousam nos pássaros.


uma vez andava e vi a lua balançar nos fios elétricos. Com o peso empurrava-os para frente e para trás. Apontei para meu amigo e ele não entendeu, "não vejo nada, apenas os fios dos postes balançando por causa do vento."

20.7.06

momentos

smoking

como a fumaça do cigarro, o dia nunca é o mesmo, por mais que suas diferenças sejam quase imperceptíveis. A mesma foto no mesmo lugar, no mesmo horário nunca será a mesma, como os frutos de uma mesma árvore nunca serão o mesmo a medida dos dias.
São fios de fumaças que trazem histórias...será bobo fazer esta comparação?..
Talvez. Mas assim acabaria por dizer que pesar a fumaça também é algo tolo, não?
Para mim não é. E cada um solta a fumaça como bem sabe.

12.7.06

Fragmento

Fragmento de um desenho que fiz.

Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. - Manoel de Barros

9.7.06

invento

Mãos se tocam, criam imagens... linhas que se enrroscam. Fio de sons seguem como borbulhos. Encontros são fios de instantes. Que nossos corpos fazem, refazem, desfazem como plantas... as linhas de suas folhas.
Como palavras que daçam nas mãos de Lispector, de Manoel de Barros... das suas bocas. Das minhas mãos saem pontilhados, da minha boca mariposas. Não estas que voam, mas as que se guardam em meu corpo, que me fazem cócegas... É difícil expo-las, mostra-las, nem sempre sobrevivem...
Um beijo... talvez seja por isso que deve ser cuidadoso, pois a cada toque uma mariposa brota da língua e voa. Nem sempre.
Sou apenas criança que inventa, que a cada toque me faz brotar.

5.7.06

diálogo perdido/ chá das seis

1.Como pode um desconcerto? A bailarina equilibrista cair de seu fio? Que frio gélido, que dor no estômago. As palavras se embaralham, as frases se distânciam até virar linha...até virar um fio. De lá se vê um corpinho miúdo da dançarina cair cair... Como isso pode acontecer? cair cair...


2.Está chovendo lá dentro. Dentro do cômodo escuro. Os móveis rangem e as janelas se fecham, viradas para dentro...
Não entendo, os homens andam encolhidos, o frio se aperta. As paredes molhadas. O cômodo chove. Andam calados, essas pessoas. Não há conversa, não há prosa. Não entendo, minha pessoa palpita por um diálogo...uma prosa, mas o silêncio é aliado de quem anda do lado de dentro e a janela bate com força, não me deixando entrar.
Tempo fechado.
Ninguém mais sabe prosar? As pessoas que vejo andar pela fresta da janela se encurvam dentro de seus guardas-chuvas, ficam a fugir das gotas de chuva...fugir de um possível diálogo. As conversas, se são feitas, não se demoram com os passos de quem tem pressa...


3.E se te servem o chá não há chá. ele escorre no âmbito...em algum canto.

2.7.06




Calum Colvin

Fragmentos de um louco

(2)
Ei, alguém se lembra daquela saia rodada que o clarinete fazia voar? Aquele som doce, mansso de mulher; passo elegante de cada nota. Quem não sente o cheiro de coisa doce, coisa antiga/nova? sinto o nariz até fazer cócegas, vontade de espirrar.
Ah, caminho romântico...pro lado. Ás vezes a gente sente o corpo quente, ninguém sabe sentir por que é romântico demais. Sentir o corpo quente. Os loucos sentem. Os românticos, estes, tentam, mas só sabem escrever.

mulheres empinadas de grandes chapéus com plumas.



(3)

moça descalça dançando
a calçada molhada, brincando
no pé de criança.
Quem vê não entende.
e quem vai entender?
é louco
que infesta o corpo de mulher.
no vestido azul.
roda mulher
nas notas do clarinete...

roda figura inerte
na roda do bambolê..
chora aquele que não chora
na voz irritante de criança.

Quem vai entender
o som estridente de um clarinete?



(13/14)


roda, roda, roda
roda corpo bobo,
bobo roda roda
roda bobo da corte,
roda chapéu empinado
e o menino que roda
roda os limãos no ar roda
roda roda roda
por que quem roda
fica tonto? roda roda
roda eu queria rodar
feito bailarina,
que de tanto rodar, roda roda
sorri feito boba,
mas eu não.
só dobro o chão.



(13/14)


som mais doce, parece passo de
madame. ou passo de café,
de bebida escura. de um homem
sentado no blues.
ás vezes vira muleque rodando
com bicicleta e moça-criança
rindo. e se cavar com pá, vira
rosto, vira folha de árvore,
vira chão, parede.
vira e revira!! Como se dança isso?
num chacoalhar de ombros, talvez.

quero só dar risada, que
ninguém me tira daqui!!!




(como é bom escutar música, ninguém pode dizer como se escuta!!)
(e no imaginário Parklife e Out Of Time do Blur)

24.6.06

mudança de cenário

Ás vezes as paredes parecem menores, como se meus pés estivessem no início de uma ladeira. O teto, a cima de minha cabeça, se torna baixo demais para eu ficar em pé e alto demais para os limites de meus olhos. Uma gangorra que me leva para cima e para baixo.
Uma vez, quando não havia quase espaço para mim, vi uma bolinha de gude descer a minha ladeira, descer descer, fazendo rugido. Fiquei encolhida, a cabeça baixa, escutando o barulho, que para mim era música. Nunca parou. Foi então que percebi que não havia fronteiras neste espaço distorcido, apenas passagens... infinitas.
Para onde ia a bolinha de gude?
Não há enquadramento, nem sempre meus olhos vêem.
Para onde vou nesse mar de ondas? Nem sempre tenho meus pés no lugar, sinto que ando lentamente, mas ando. Sinto que posso moldar o espaço...só preciso conhecê-lo. Tocá-lo com meu corpo. Este 'cômodo' inverso, este corpo de lagarto, que muda de cor, que não tem cor.

12.6.06

rabisco de agúa

Não sei.. andando na rua, céu quase limpo.
Foi quando o céu fez garoa. Estranha sensação. Passei por um trecho da calçada e parou de garoar. Fiquei a fitar o céu,as pessoas, ninguém sentiu diferença. Não compreendi. Foi sonho? Nunca senti isso... ás vezes acontece de garoar.. de repente, mas tive uma impressão de que foi só naquele trecho da calçada que garoou. Que foi uma nuvem perdida.
Não compreendi. Alguém riscou linhas no céu. Fingiu ser garoa.


(disse que ia escrever um texto grande, mas não escrevi. Ficar preso as coisas é paia demais.)

1.6.06

Rádio do Invisível

Nunca senti isto antes, foi o que pensei...mas todas as grandes perdas de nossa vida, são assim...atroses. Por um momento fiquei com medo da vida, achei que ela era ladrão, que ia me roubar pra ela, como fez com o Mudo. Mas não é. Sei por que estou com medo, pois são nessas perdas que nós sentimos mais pertos da vida, até se juntar a ela, ser um só.
Eu não sei nada, não, sou mais perdida que bicho no mato. Mas, sei lá viu, tão todos em lugar nenhum..e agora o joão também.Tão todos na cabeça, no labirinto das pessoas...nessa escadaria sem pé nem cabeça que todos tem num pensar sem parar. E ele tá la, nesse pensar. Sentado, lá, numa cadeira,..fazendo careta!
Bobo bobo dizer isso, mas a escrita faz isso mesmo, faz som triiste brincadeira, faz poesia do feio, cócegas no mau agouro. Blé!
Se é tatu vira bola. Se é bola, vira mundo. Escrita é doida assim, bem doida. E é nessa doidices que me despeço do Mudo. Que me despeço desse mudo, meu mudo dentro de mim. Esse no pensar pensamentos que não param.....sou saudosa eternamente saudosa..


tchau mudo...adios!

13.5.06

Viúva

...minhas mãos tremem, fitam as letras do teclado...Fingem impulso para escrever, se elas fugirem...ficarei solitária.

5.5.06

Gato de móvel.

Todo gato é cuidadoso ao passar por uma pratileira. Suas patas sinuosas se desviam quase como mágica dos objetos. Mas eu não, seria gata desastrosa. Pularia destrambelhadamente no móvel e andaria em linha reta, a derrubar ou pisar em qualquer objeto que estiver no meu caminho. Não me importaria com o móvel, não me importaria com seus inquilinos. Seriam como aberrações ou simplesmente invisíveis para minha pessoa, meu nariz.

Andaria. Comeria e então iria embora. Assim. Com meu rabo empinado e os olhos sempre a engolirem o mundo. A casa, um espaço muito pequeno para minha fome.
Buscaria outros espaços e assim, marcando território, derrubaria objetos ao léu.
E quem quer mesmo saber? Eu que não. Que se exploda o mundo. Eu, gato que sou, pouco me importo. Sou travessa, já não seria, pois sou e olho além de vocês. Além do mundo.

Fixo meus olhos na lâmpada e posso passar o dia inteiro a namorá-la. Ela me quer e eu a fito, fazendo-a existir. Meus olhos amarelos são namorados de quem eu quizer.
Pouco me importo com choradas. Pouco me importo. Sou muito mais eu.

30.4.06

Quadro de mãos

Preto no branco. Enlace, desenlace. mãos, mudas. vê não vê. Calor...
Silêncio sob silêncio. olhos que fitam, desviam, viam...não viam.
bobo tempo em preto e branco. quadro de mãos.


Ás vezes a escrita não tem sentido mesmo. Só quem não vê entende isso.

28.4.06

Rádio II

Tabuleiro de xadrez. As peças não se movem. o rádio 'zarpa' no imaginário, não se escuta, se escuta. A sala está vazia...Mentira. Um gato fita a lâmpada, com olhos esbugalhados. Tempo parado.

O rádio se escuta.



(bem que podia ter som neste blog...seria bem vindo os grandes musicos dessa vida)

(um site bonito de samba-choro: http://www.samba-choro.com.br/)

Rádio

e deixo no imaginário o nosso querido Cartola cantando o nosso grande e bem querido Guilherme de Brito....Folhas Secas.

"(...)
Quando o tempo avisar
Que não posso mais cantar
Sei que vou sentir saudade
Ao lado do meu violão
Da minha mocidade
(...)"


Lá vai Brito se juntar aos outros bambas, lá de cima...
Mas olha! Me escuta!
Deixe um alô para todos.
Um dia vou me sentar ao lado de uma mesinha, assim, bem próximo de um pequeno palco. E escutarei como se fosse a minha primeira vez! Com os pés a atormentar-me, querendo dançar! Com os olhos arregalados! Todos os grandes músicos!

Se os sonhos fossem reais...

25.4.06

sem título

caminhos de gota dagua.
gota acizentada que cria vida.chorada. vai se jogando, se repetindo, até criar formas, des-formas. até virar tecido, sujeira.
vira e revira... nos meus olhos de gata, só vejo pessoas.
mas nos olhos de quem não viu, é só gota de nanquim.

24.4.06

samba

Passo de moço; sapato novo. Pandeiro que dança no ar. Meu samba é de braços e passos. Ar quente, calor que incomoda, reconforta...esse é o meu samba. Feito de conversas, de vozes soltas, roucas até. Na rua, de pé, sentado, ao lado, de lado, na curva, encruzilhada...Naquela árvore. Nao se sabe, nem os pés sabem...

samba não se aprende, se faz..!

nao sou sábia, nao sou velha, nem nova e assim é meu samba...como eu! quem nao quer, quem quer, quem não gosta, quem gosta, assim se vai num assobiar, numa batida dum pandeiro...se vai pralgum lugar, sei lá, viu.